Dilemas do Sr. Inclusp e da Dona Eleição

Quando há intercambio cultural entre pessoas de diferentes classes sociais, a comunidade universitária torna-se mais rica; fonte inesgotável de novas ideias, pensamentos e mais humanidade.

Um artigo sobre a desmistificação dos argumentos daqueles que não são a favor das políticas afirmativas nas Universidades, baseado em pesquisa da UERJ, publicado na Revista Carta Capital, chamou minha atenção. Cheguei até a fazer um comentário na página online. Deste comentário, surgiu esse post. Aqui, vou tratar principalmente da cota para negros.

Segundo o artigo, e também, o que há tempos supunha e comentava com meus amigos, os dados estatísticos mostram que a maioria beneficiada pela cota é constituída realmente de pessoas que necessitam desta ‘chance’, já que “das 40 universidades que adotaram critérios raciais na seleção de alunos, somente 4 não possuem nenhum tipo de corte socioeconômico associado”. Traduzindo de uma maneira bem clara: para ter esse direito,“você deve ser negro e pobre; só negro, não vale”.

Essa constatação desbanca o argumento tosco de muitos ‘filhinhos da classe média alta’, que tiveram acesso aos melhores e mais caros cursinhos, como ‘Objetivo’ e ‘Anglo’ (no caso de São Paulo) e ‘PH’ e ‘Miguel Couto’ (no caso do Rio) , que se dizem prejudicados, afirmando que “muitos negros de classe média ou ricos se aproveitam dessa política”, tirando “suas tão suadas” vagas. Parece até que os cursinhos não ensinaram, apesar de caros, sobre os resquícios da escravidão no Brasil, o processo de favelização, os altos índices de desigualdade social, e a maravilha que é o acesso à educação de qualidade neste país. Será mesmo que não ensinaram?

Jean Baptiste Debret

Mas duas coisas me incomodam desde quando comecei a estudar na Universidade de São Paulo: a primeira, “não tem nenhum negro na turma!”; a segunda, o posicionamento político-partidário de colegas uspianos, e de boa parte dos paulistas, em geral.

Ué, mas não existe o Inclusp?  Sim, existe. De acordo com o Manual do Candidato, publicado no site da tão temida FUVEST, “O INCLUSP expressa a política de Inclusão Social da USP, buscando favorecer o ingresso de estudantes egressos do Ensino Médio Público do Brasil”. Ou seja, diferente de outras universidades como UERJ e UFRJ, a USP não considera a questão racial em sua política de Inclusão Social. O que é uma grande perda para a comunidade universitária, e para São Paulo.

E como se não bastasse não considerar a questão racial, o tal ‘Sistema de pontuação acrescida’ não passa de uma fachada, porque não ajuda o pobre, que estudou – não por opção, é lógico – em uma escola pública ruim durante toda a vida – como é a maioria das escolas públicas no Brasil – a nem mesmo chegar à segunda fase do processo de seleção. Por mais que ele ganhe o bônus, não alcança a nota de corte. Os que alcançam – pouquíssimos, comparados aos que passam no vestibular sem ser através do Inclusp – talvez não precisariam do bônus.

O reflexo desse tipo de ‘política de inclusão social’ é uma universidade pública não tão rica quanto poderia ser, quando falamos em pessoas de universos e culturas diferentes convivendo e proporcionando uma troca muito válida e produtiva, que faria ainda mais jus ao imposto pago pelo morador do Estado de São Paulo. O Inclusp, na forma como está ‘trabalhando’, passa a funcionar apenas como uma maquiagem, querendo mostrar que a USP não é elitista, mas pretendendo claramente “manter o ‘nível’ classe-média alta” da comunidade uspiana. Se isso acontece sem intenção, Sr. Inclusp, me perdoe.

Tendo falado a respeito das cotas, a segunda coisa que me incomoda e me preenche de curiosidade é o fato de muitas pessoas com as quais converso em São Paulo e na faculdade serem politicamente inclinadas para a direita, e ‘amigos íntimos’ de partidos como o PSDB; inclusive alguns professores. Vale ressaltar aqui que o próprio Serra estudou na Poli, faculdade das Engenharias, que não tem fama nenhuma de preocupada com as questões mais tocantes ao ser humano e suas necessidades sociais. Essa tendência à direita pode estar intimamente ligada ao ingresso majoritário dos ‘filhos da classe média alta’ paulista, paulistana e de todos os outros cantos do país – mineiros e capixabas, por exemplo – nas faculdades e escolas da Universidade. Vale a pena refletir, então, se é possível que umas alterações nas ‘regrinhas’ do Inclusp seriam capazes de trazer alguma transformação desse quadro.

Podemos considerar também que o campus principal da USP está localizado na capital do estado, onde, como já falado em post anterior, as pessoas tem pouco contato com a pobreza e a miséria das favelas, o contrário do que acontece frequentemente no Rio de Janeiro; o que pode também ser um fator que influencia a escolha do direcionamento político.

Apesar de ter a sensação de que os da direita iriam conquistar o coração da Dona eleição 2010 na USP, o Jornal do Campus mostrou, em matéria especial da edição às vésperas do dia 3 de outubro, baseado em pesquisa do Instituto datafolha – ironicamente do Grupo Folha, que junto à Veja, Estadão e O Globo fazem de tudo para arrancar os votos do PT- com cerca de 1000 pessoas, que Marina Silva está na frente da Dilma, e a Dilma, do Serra, em intenções de voto no Campus. Talvez, nós, alunos brancos de classe média, que nos achamos ‘donos da verdade’ e das ‘certas opiniões’ só por termos orgulho de usar camisetas com a sigla USP, tenhamos aprendido alguma coisa em nossos cursinhos medíocres que não nos ensinou muito sobre a vida.

Se não foram os cursinhos, pelo menos alguns lembram que o Serra mandou a galera da Polícia Militar invadir o Campus Universitário durante a greve de funcionários…

Anúncios

  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: