O jornalismo de óculos embaçados

FOTO João Roberto Ripper

Resolvi inaugurar meus posts com um tema sensível, delicado. Não que seja exclusivo para garotas, mas exige um feeling bem humanista, cuidadoso, carinhoso e amoroso.

Sou estudante de jornalismo e, há algumas semanas, uma palestra que assisti mexeu muito comigo. Nesse ponto, decidi para quê iria dedicar essas primeiras linhas: escrever sobre o olhar preconceituoso; aquele tão perigoso para o comunicador, para o jornalista em especial.

Assim como a Semana de Arte Moderna, de 1929, aconteceu, em mim, a semana da G. Almeida pensativa a respeito de ‘como fazer a minha profissão possuir sentido’, ou até, ‘como estamos destruindo a beleza, a essência da nossa profissão’… Pode ser que seja o tipo de reflexão que um calouro, ainda utopista apaixonado, sempre faça, mas mesmo assim resolvi registrá-la, acreditando no poder do resgate aos princípios, à essência; no sentimento fundamental.

FOTO João Roberto Ripper

A palestra foi incrível. João Roberto Ripper, carioca, que trabalha há mais de 20 anos como fotógrafo documental, viajou até os confins da USP para reacender, pelo menos em mim, a chama humanitária que traz o que eu chamaria de ‘o verdadeiro jornalismo’, por não encontrar expressão menos determinista. Durante a apresentação das deliciosas fotografias, eu me questionava, preocupada comigo mesma: Como eu escondi dentro de mim essa maneira tão essencial de olhar o mundo? Essa forma cuidadosa, humilde de enxergar meus semelhantes? A partir daí, comecei a raciocinar para tentar encontrar pelo menos um motivo. E cheguei a algumas linhas, colocadas abaixo, quando o assunto é ‘eixo RioSP’:

O pobre e o rico pelo menos se vêem no cotidiano carioca. Suas existências e realidades se esbarram, ou melhor, se chocam.

No Rio de Janeiro Capital, nos deparamos, em uma simples caminhada pela orla de Copacabana, com uma gama bastante ampla de pessoas diferentes, de origens diferentes e principalmente, de classes sociais diferentes. (Essa é A hora de você se lembrar daquela aula bacana do cursinho pré-vestibular sobre segregação, em geografia). Da cobertura no Leblon ao barraco na favela. Um contraste que atrai muitos turistas, e que traz uma riqueza no ambiente carioca, um certo ‘ar’ de ‘aceitação’, de ‘ambiente comum’, de ‘compartilhamento de realidades’ e de ‘experiências’. Lógico que não é assim, tão belo, idealizado e ‘feliz para sempre’, mas esse contraste evidente, exposto, deve criar alguma espécie de ‘encanto’ capaz de conectar as pessoas que vivem ali; capaz de trazer um sentimento de preocupação com o outro; uma possibilidade elevada de ‘deparar-se com várias realidades’.

O Parque Ibirapuera, uma das principais áreas de lazer que caracterizam o ambiente paulistano, fica localizado na Zona Sul da Capital, área nobre da cidade. As classes média e alta são as principais frequentadoras.

O calçadão de Copacabana, sinônimo de lazer no Rio de Janeiro, é frequentado por todas as classes sociais que compõe o ambiente carioca. É lá um dos 'pontos de encontro' de pessoas de diferentes origens e realidades.

Desse ‘encanto’, senti falta na capital de São Paulo… mais especificamente na área nobre da metrópole. Diferente do Rio, a periferia de São Paulo é na periferia mesmo, relativamente ‘longe’ de onde a classe média e classe alta convivem. Parece que facilmente as pessoas são ‘induzidas’ a esquecer dos outros que não fazem parte de seu ‘mundo de classe média-alta’. E aí pode morar um perigo; aliás, um perigo muito, mas muito ruim para um aspirante a jornalista. Esquecer que pobres ou ricos, somos todos humanos, e temos necessidades, sentimentos, sonhos. Amamos, sofremos, nos alegramos. Passamos por problemas, e dependemos da ajuda do outro. E também, que podemos ajudar nossos semelhantes. Podemos detectar o que está errado, e precisa ser mudado. Podemos enxergar o que está certo, e necessita ser louvado, divulgado.

FOTO João Roberto Ripper

Eu chorei ao ver nos telões do auditório as principais fotos que tentavam resumir o trabalho de Ripper . Lembrei-me de onde eu vim. Refletidas nas telas, algumas expressões que diziam tanto; eram de índios, de brasileiros que mesmo no século XXI são escravos por dívida, de moradores de favelas cariocas, de crianças que trabalham nas carvoarias. Expressão de alegria onde não imaginávamos, de beleza onde não esperávamos, de luta e de garra onde julgávamos não existir. Mas pode ser que esse choque tenha acontecido justamente porque cheguei ao ponto de quase me esquecer o quanto já convivi com tantos de origens e crenças diferentes; de realidades ricas, que me acrescentaram, me formaram, me transformaram. Quase cheguei ao ponto de ser engolida por essa ilusão de ‘eu sou prioridade no mundo’, que sonda a cidade grande, ‘terra de ninguém’. Inclusive, simultâneo aos slides, o palestrante explicava a importância do ouvir, do ‘colocar-se em posição de aprendiz’ como primordial para um fotojornalista, o que eu aplico diretamente a qualquer profissional da área de comunicação social.

FOTO João Roberto Ripper

Pode parecer um tema ‘bichado’, bonitinho demais, puritano demais. E pode realmente ser. Mas por que não tentar? Por que não se lembrar disso todos os dias? O curioso é que não fazemos muito esforço para nos preocuparmos com isso como primícia para o Ser por causa do preconceito e da auto-suficiência. Esses metralham um coração jornalista, detonam um olhar que precisa ser questionador, movido pela curiosidade constante sobre como conseguir ver o que o outro pede, precisa, clama. Mas cuidado. Se for para olhar com o próprio olho, melhor nem querer ver. O diferencial pode estar em mudar o “como olhar”, trocar a lente; quero me colocar no lugar deles, me alegrar junto, sofrer junto, para ter um mínimo de moral para falar alguma coisa, sobre qualquer aspecto de necessidade ‘sócio-antropo-política’. Aí sim, dá para começar a falar em jornalismo.

Além dessa palestra, as aulas de ‘Ética no jornalismo’, ministradas pelo professor Eugêncio Bucci, começaram a acontecer em mim, no meu ser racional, no meu ‘íntimo profissional’. Nesse contexto psicológico, também presenciei uma defesa de tese de mestrado que tratava ‘o olhar do estrangeiro sobre o Brasil’, baseada na experiência do jornalista Harry Lotter como correspondente internacional. Mas sobre essas outras duas experiências também sensacionais, vou escrever em outros posts.

É curioso que pretendia escrever sob outro foco, querendo citar vários autores nos quais ‘tropecei’ nestas semanas… Mas preferi não me importar com o quanto minhas linhas iriam parecer intelectual e ‘cult’. Tentei traduzir o que senti lá, naquele auditório.

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